E agora?

E quando o projeto que traçaste para ti próprio se esvanece por fatores externos à tua ação, e tens que fazer uma mudança de mindset instantânea, acionando um plano de ação que não previas?

No presente, todos estamos cansados de ouvir a expressão que vivemos no mundo VUCA, em que a nossa capacidade de adaptação e gestão dos imprevistos tem que ser uma das competências mais ativas no nosso comportamento. Mas, uma coisa é a retórica implícita no conceito que fica sempre bem promover, outra é perceber que este facto é bem real e pode surgir em qualquer momento das nossas vidas. Mais profundo ainda, é compreender toda a carga emocional que acompanha este processo, e mais do que gerir a mudança e a nova realidade; a grande questão é como gerir as emoções negativas e bloqueadoras que lhe são inerentes. Então, porque não nos focamos no que podemos fazer para agilizar uma saída e promover a mudança necessária, e em vez disso, ficamos presos nos problemas bem reais, bloqueados no tempo, sem energia a procurar aliados na nossa frustração de que afinal a realidade mudou contrariando a nossa vontade?

Este comportamento é natural e tem essencialmente a ver com o estado de choque. O que pode ser feito após este momento é crucial como vamos fazer a gestão de toda a situação. No meu entender, devemos “centrar-nos”; ou seja, em vez de focarmos a atenção na resolução de problemas práticos que não dependem da nossa decisão num primeiro momento; devemos sim parar, compreender o que estamos a sentir com a situação e como podemos “calibrar” as nossas emoções, evitando comportamentos tóxicos e dissonantes que agravam a forma como depois podemos resolver essas mesmas questões práticas.

A gestão emocional é um “plus”, assim como uma análise pragmática da situação (olhar para o todo e não nos focarmos apenas nos aspetos que nos são confortáveis para nos desresponsabilizarmos de agir).

O agir, depende de cada um e das suas motivações. Mas a capacidade de percecionar a realidade de diferentes formas para encontrar soluções, já é algo que pode ser trabalhado e praticado. Na verdade, existe uma força que todos temos, mas que muitos não aproveitam, que é a nossa capacidade de nos reinventarmos perante os diferentes cenários em que somos colocados durante a vida. Essa capacidade está sempre associada a autoconfiança, autoconhecimento e resiliência – três fatores decisivos também na inteligência social. Quando esta tríade é dominada e ativada, torna-se muito mais fácil não só o processo da gestão perante o desconhecido, como a adaptação à nova realidade. Contudo, o domínio destes fatores, exige um esforço que muitos não querem ter – o sair da zona de conforto.

E agora?... não existe. A questão deve ser colocada como é que as nossas ações, os nossos valores e o nosso propósito vão “resistir” a toda a mudança. O agora não existe, porque é um estado permanente e não um momento de bloqueio no tempo. O ownership do processo é nosso e exige a tomada de decisões, e talvez seja este o ponto de fragilidade que tanta insegurança e incerteza agrega. Mas, por outro lado, são também potenciadores de confiança se conseguimos deixar as amarras aqui mencionadas para trás e perceber que quase sempre tudo depende de nós.

Rui Carvalho

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